3 de fevereiro de 2008

abraço

(Para você, bebê.)


Meus braços comilões
esticam-se qual elástico;
fazem voltas nas suas costas,
te prendem junto de mim.

Meus dedos finos, esticados
brincam com seu cabelo
engomado.

Meus olhos lêem os seus,
decifram cada uma de suas palavras
enigmáticas.

Eu leio e releio,
deixando-as cravarem fundo
em mim.

31 de janeiro de 2008

contra-evidência

Ando revirando os arquivos da memória
em busca de evidências
de coisas que não sinto mais.

Procuro provas invisíveis,
- a verdade na falta -
busco o que não é,
o que não há.

Nesse caso específico,
minha mente cientista
quer os dados-fantasmas;
a sonhada
evidência negativa.

30 de janeiro de 2008

sapequices

Subo nos seus pés
pra ficar mais alta que você.

Seus movimentos,
esquerda, direita,
brincam comigo;
testam, jocosos,
o meu equilíbrio.

Eu quase caio,
suas mãos me firmam.
Seu olhar,
atento em mim.

Te beijo lento
sem momento
de início e fim.

15 de janeiro de 2008

morte e vida

E hoje
quando me lembrei dos nossos fatos
vi que esqueci
o nome do seu bairro.

sua presença
cada vez mais irreal.

minha liberdade
meus novos sonhos
cada vez mais vivos
em mim.

1 de dezembro de 2007

Fim de inverno

Faz tempos que não sinto
cheiro de chuva
enchendo meu peito.

Meu coração anda seco e salgado
doído de saudades;
um sal que me dá desespero
- só pode ser.

Esse ar rarefeito,
de inverno tão seco,
das montanhas que tanto amo,
hoje me faz mal.

Me faz desejar a garoa
e tudo o mais que ela traz.

23 de novembro de 2007

Encontro frustrado

Hoje eu tinha uma reunião marcada
com a minha sensibilidade
e com meu coração-poeta.

Tinha até a pauta:
aquele poema novo
que há tempos dorme à vontade,
dentro de mim.

Combinamos de dar-lhe forma.
Eu tinha pressa em alinhavá-lo,
conectar suas pontas soltas com minha agulha,
que tem cara de verbos e conjunções.

Mas de tão atarefada,
-- e imersa em afazeres
que todos os dias
me roubam os olhos --,
cheguei atrasada,
sem caneta, sem nada...

e o encontro se frustrou.

8 de novembro de 2007

Clara

Com seus olhos curiosos

escondidos atrás de duas lentes,

Clara observa o mundo,

que se desenrola à sua frente.

Seu cabelo liso, castanho,

desce até os seus ombros,

sempre impecável,

enfeitado com fitas.

Clara é doce,

menina quieta,

ressabiada.

Que ternos são seus olhos tão grandes.



Ilustração: Bruno Assad