Poemas despretensiosos sobre margaridas, manhãs de sol e tudo mais o que encanta as minhas pobres retinas.
7 de outubro de 2013
Vivendo
que, para mim, bem lá no fundo,
escrever é viver.
é me prensar no papel;
sair carimbando toda e qualquer superfície
com as minhas impressões digitais.
é me escanear por inteira,
me colocar na copiadora -
jogar-me em domínio público
para quem quiser ler.
escrever para mim
é um ato de coragem.
23 de julho de 2010
receita
gosto do verso que não arranca suspiros.
gosto da letra que não crava,
não marca, não grava,
só passa;
gosto da poesia etérea,
leve,
breve,
que nasce e evapora,
que se veste de prosa,
que me arranca o ar.
23 de novembro de 2007
Encontro frustrado
com a minha sensibilidade
e com meu coração-poeta.
Tinha até a pauta:
aquele poema novo
que há tempos dorme à vontade,
dentro de mim.
Combinamos de dar-lhe forma.
Eu tinha pressa em alinhavá-lo,
conectar suas pontas soltas com minha agulha,
que tem cara de verbos e conjunções.
Mas de tão atarefada,
-- e imersa em afazeres
que todos os dias
me roubam os olhos --,
cheguei atrasada,
sem caneta, sem nada...
e o encontro se frustrou.
7 de outubro de 2007
Gravidez
dentro de mim.
Sinto-me prenha de idéias,
que dormem felizes em
minha cabeça
incubadora.
Por ora deixo
que amadureçam
sem pressa.
Para então nascerem
em caixas alegres,
adornadas com laços e fitas.
15 de junho de 2007
Pastiche
roubei seu estilo,
peguei suas rimas emprestadas,
e não devolvi.
Analisei sua sintaxe,
cavei fundo na sua semântica,
desvendei as implicaturas da sua pragmática.
Me apropriei de suas gírias.
Fiz ctrl+c, ctrl+v nas suas expressões.
Colori-as todas com meu sotaque,
carregado de montanhas.
Todos os dias
te faço um mãos-ao-alto silencioso.
Aponto a arma,
e saio te copiando.
E seus olhos sequer percebem
minhas mãos sob luvas;
disfarçadas.
9 de maio de 2007
Identidade
libertar-me de influências,
seguir vôo de pássaro
sozinho no céu.
Parar de escrever
pensando em quem
(não) vai me ler.
Escrever primeiro pra mim,
dialogar comigo,
ser minha primeira leitora.
Parar de dar satisfações.
Não mais me explicar.
Parar com minhas conexões lógicas.
Vou trilhar o caminho fechado,
levantar eu mesma as pedras,
sujar de terra o pé descalço,
abrir caminhos;
mão-na-massa vou criar
minha poesia.
Meus poemas terão cheiro de mim;
- se agradável ou não,
pouco importa.
Rirão como eu;
escorrerão meu pranto.
22 de abril de 2007
Ah...! Um poema!
do meu lado,
quando o relógio tocou.
Cada frase, uma carta,
formando uma pilha
de pensamentos
desalinhados.
Cartas brancas,
frente e verso.
Pesquei-as com minha pinça;
uma a uma
espalhei-as sobre o lençol.
Dei-lhes minha sequência subjetiva.
Colei nelas o meu mau-humor matinal.
E as cartas gritaram.
31 de março de 2007
Agenda
implorando todos os dias,
que eu olhe para eles.
E apenas eu,
- e ninguém mais,
pode ouvir a súplica das palavras
que nem sequer existem,
mas que já querem deitar no papel.
Eu acho que preciso fechar os olhos,
e sentir mais.
e enxergar mais imagens.
e vislumbrar mais hipóteses.
e puxar mais palavras pro lado de cá.
7 de novembro de 2006
Ao leitor
(porque Machado de Assis me inspira)
A tua curiosidade, leitor,
é o que mais me incita a escrever.
É que em tua mente,
corre sempre a idéia,
de que aqui encontrarás minhas réplicas,
disfarçadas com metáforas,
e adornadas de um tom de mistério.
Achas
- bem atrevidamente -
que sempre que preciso falar
daquilo que me impressiona,
ponho a poesia a meu serviço,
e, assim, digo o que quero,
sem contudo me comprometer.
Ah, ingênuo leitor,
que te julgas desvendador de mistérios!
Se me lêsses com mais atenção perceberias,
que a minha escrita é
torta
feia
e ambígua.
9 de junho de 2006
Enigma Claro
Eu não quero comentários para esse poema.
Quero apenas escurecê-lo
com tinta guache preta.
Não quero frases emotivas,
que causem prazer,
ou que possam ser compreendidas.
Quero apenas o que é torto,
o que é feio
o que espanta,
o que assusta
o que causa repulsa.
Neste poema, pulsam meus medos.
A falta eterna de palavras
extravasa pelos meus dedos.
Estou farta de escrever pra o outro entender.
Cansei-me dos lugares comuns,
das rimas raras
da métrica que jamais alcancei.
Não sei palavras poéticas.
Desconheço verbos que impressionam.
Eu falo.
E o que falo só eu posso entender.
Eu quero um poema que é e não é.
Não quero metáforas claras
Não quero cenas de amor.
Apenas um poema escuro,
um poema sem sabor.
Esses versos conversam com estes aqui.
2 de maio de 2006
Poeta Míope
em que meus olhos se encontram parcialmente
fechados.
É quando meus cílios tremem,
As pálpebras oscilam,
E a imagem à minha frente acha-se irresistivelmente
desfocada.
Minha miopia me ajuda a escrever.
À distância vejo um ponto preto na parede
E penso tratar-se de um inseto
Olho o horizonte,
vejo o que seria um avião,
E o confundo com um pássaro.
E sinto-me propícia a metáforas.
20 de março de 2006
Inquietações Lingüísticas
Para Ray Jackendoff
Eu quero entenderO que faz a criança saber
Que a gente diz “o menino viu o cachorro”
E não “cachorro menino viu o”.
Eu quero saber o que faz o outro entender,
Que se eu digo: “Já vim almoçada”
Não estou dizendo que “alguém me almoçou”,
Mas que eu já almocei.
E por que será que quando ouço que
“João cortou o cabelo”,
eu sei que João não cortou nada,
Mas que alguém cortou os cabelos dele?
E veja só como tudo muda,
se eu disser que
“João cortou a folha”!
Aqui, sem dúvida, ele pegou a tesoura!
E como é que você que me lê nesse momento,
entende que esse “ele” é “João”,
e não um outro elemento?
Ah… assim caminha a língua.
Com suas tramas,
Suas construções “estranhas”…
Seus enigmas.
20 de fevereiro de 2006
Atrás dos olhos
Atrás dos meus olhos voa uma imagem,
E eu corro atrás dela,
no afã de capturá-la em palavras.
Ela esvoaça qual borboleta livre,
Faz pousos curtos e momentâneos.
E eu atrás, silente,
esperando que ela não se espante.
Papel em branco, convite à escrita.
Uma imagem que voa fugaz.
É tudo que tenho pra tecer meu poema,
minha pena é meu puçá.
Borboleta na rede, alegria do escritor!
É hora de começar a fiar.
Neste momento, o escrito e o visível se fundem
Numa teia de grafemas, sons e imagens,
em versos que entrelaçam
fotografia, arte e linguagem.
7 de fevereiro de 2006
Rodeios
Quero voltar a escrever
Mas o meu tempo,
Ou melhor, minha inspiração,
quero dizer,
a fonte dela,
que jorra pela minha mão,
- sabe aquela? -
Pois é…
Temo dizer,
ela se foi.
E coro diante de minhas confissões.
Passo diariamente diante de mil idéias,
Mas não tenho tempo de deixar que elas me inspirem.
Ouço o som surdo de mil palavras
Que só existem na minha mente.
E qual poeta demente, não as deixo falar.
14 de outubro de 2005
Poética
Eu só escrevo para gerar dúvida
múltiplos sentidos
e inquietação.
A linguagem pura,
o sentido primitivo dos termos,
esses aí eu não gosto de usar.
Cada poema meu é uma réplica,
onde a provocação se faz sutil.
Para um bom entendedor, meia palavra basta.
11 de setembro de 2005
Versos Íntimos
Eu quis apenas escrever alguns versos tímidos,
Imaginando que o leitor pudesse se enxergar neles.
E era só esse o meu desejo: uns versos bem simples.
Que, quem sabe, pudessem fazer algum sentido.
E lancei-os ao vento,
pra quem quisesse ler,
pra quem ousasse olhar.
E é só isso: não tenho outras pretensões.
Minhas rimas não são ricas,
nem tenho ferramenta de artesão.
Meus versos são tímidos.
Feitos de matéria real.
Não falo de um mundo invisível.
Faço cópia, falo de espelho.
Falo do que sou, falo do que sinto.
4 de agosto de 2005
Desejo Inocente
Para o Luiz
Quero publicar um poema,
mas tenho medo que me leiam mal.
Vai que ele suscite leituras não autorizadas
e mais tarde me meta em maus lençóis?
Mas é precisamente por esse motivo,
que preciso torná-lo público.
Reprimir o desejo, penso,
só o tornará mais agudo.
E depois – racionalizo,
preciso acabar com esse ar inseguro,
Dar a cara a tapa,
provocar com as palavras,
Tomar as rédeas desse jogo imaturo.
E se virem metáfora onde não há,
figuras onde jamais as imaginei,
e sentidos que nunca quis inscrever,
- a inocência que se exploda!
Eu vou escrever sem medo de me queimar.
1 de agosto de 2005
Metalinguagem
Quero sempre o fragmento
O implícito
O dito e o não-dito nas entrelinhas.
Mas preciso de verbos.
De conjunções.
Preciso de agulha e linha.
Estou sempre oscilando
entre prolixidade e vaguidão.
Há poucas referências para muitos sentidos.